domingo, 2 de março de 2008

A encruzilhada

Na encruzilhada silenciosa do destino, quando as estrelas se multiplicaram, duas sombras errantes se encontraram. A primeira falou: -Nasci de um beijo de luz, sou força,vida,alma e esplendor. Trago em mim toda a sede do desejo, Toda a ânsia do Universo. Eu sou o Amor! O Mundo sinto enxágüe em meus pés! Sou delírio,loucura.E tu,quem és? A segunda: -Eu nasci de uma lágrima. Sou flama do teu incêndio que devora.Vivo dos olhos tristes de quem ama, para os olhos nevoentos de quem chora. Dizem que vim ao mundo para ser boa, para dar do meu sangue a quem queira. Sou a Saudade, a tua companheira, que punge, que consola e que perdoa. Na encruzilhada silenciosa do Destino, as duas sombras comovidas se abraçaram,e, desde então, o Amor e a Saudadenunca mais se separaram.
Aut.Desc;

sábado, 1 de março de 2008

Autopsicografia



O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que ele não tem.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa